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    quinta-feira, junho 01, 2017

    "Aparentemente chegamos ao fundo do poço", diz economista

    O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 1% nos três primeiros meses de 2017 em relação ao trimestre anterior, após oito trimestres de retração. Apesar de o governo comemorar o que considera ser o fim da recessão, muitos não vislumbram ainda o encerramento da crise. Mais que uma recuperação sustentável, o resultado indicaria um movimento cíclico natural da economia, após recessão tão profunda. “Aparentemente chegamos ao fundo do poço”, diz o economista Braulio Santiago Cerqueira.

    O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, chegou a classificar este momento, como “histórico”. “Depois de dois anos, o Brasil saiu da pior recessão do século”, disse, em nota. No Twitter, o presidente Michel Temer foi na mesma linha: “Acabou a recessão! Isso é resultado das medidas que estamos tomando. O Brasil voltou a crescer”, afirmou.

    Para o ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, o PIB “reflete um conjunto de ações de política econômica que tem sido implementado (...) e, em particular, o avanço das reformas econômicas no Congresso”.

    Os números, no entanto, não justificam o otimismo oficial. O próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi ponderado e avaliou que “ainda é cedo para falar em saída da recessão”.

    "É preciso esperar um pouco para ver o que vai acontecer este ano. A gente teve crescimento no trimestre, mas foi sobre uma base muito deprimida. Se olharmos no longo prazo, ainda estamos no mesmo nível de 2010", disse a coordenadora de contas nacionais do órgão, Rebeca Palis.

    O crescimento foi puxado, principalmente, pelo bom resultado da agropecuária, que teve expansão de 13,4%, e do comércio exterior, com as exportações subindo 4,8%. A indústria cresceu um tímido 0,9%, e os serviços registraram estabilidade. Os investimentos e o consumo das famílias sofreram contração no trimestre, respectivamente 1,6% e 0,1%. Apesar do crescimento da economia na comparação com o trimestre anterior, o PIB recuou 0,4% em relação ao primeiro período do ano passado

    O economista Braulio Santiago Cerqueira avalia que os números do PIB já eram esperados por analistas. Ele destaca que, mesmo que o crescimento de 1% se mantenha até o fim do ano – o que é improvável, já que previsões até então estimam uma ampliação de 0,5% –, a economia não chegará sequer a atingir o nível que tinha em 2011, diante do tombo provocado pela recessão nos últimos anos.

    “As quedas do PIB acumuladas nos últimos anos fizeram a economia brasileira voltar a um ponto entre 2010 e 2011. Então, mesmo se a economia crescer o dobro do que apontam as expectativas, ela não vai ter chegado ao nível sequer de 2011. Ou seja, tem que levar em conta a gravidade da recessão”, diz.

    Cerqueira ressalta ainda que o resultado positivo do semestre não anula outros números negativos. Considerando os 12 meses terminados em março deste ano, o PIB brasileiro recuou 2,3% em relação aos 12 meses imediatamente anteriores.

    “Então continua caindo. De fato, na margem, houve esse pequeno crescimento, muito associado à safra de grãos. E eu diria que o fator mais importante do ponto de vista da demanda para esse resultado foi o setor externo. O consumo não recuperou e o investimento não recuperou”, reiterou, chamando atenção para o fato de que a taxa de investimento – que é o total de investimento da economia sobre o produto – encontra-se hoje no valor mais baixo de toda a série histórica do IBGE, que começa em 1995: 15,6%.

    De acordo com ele, o resultado positivo, portanto, tem pouco a ver com a política econômica praticada pela atual gestão. “Eu não associaria essa recuperação na margem da economia brasileira àquilo que o governo enfatiza, que seria um choque de confiança proporcionado pela política econômica que seria agora mais responsável. Os números não mostram isso”, defende.

    O economista diz que o bom desempenho do setor externo, é fruto principalmente da desvalorização do câmbio, que ocorre desde 2015, e da depressão do mercado doméstico. “É a situação de contração da demanda interna, é natural. As empresas, os exportadores de produtos primários, se voltam mais para o mercado externo. Se você não vende aqui dentro, então você tenta vender para quem tem poder de compra no exterior”.

    Para ele, mais realista que falar em volta do crescimento, é afirmar que o país pode estar entrando agora em um período de estagnação. “O que podemos falar que está acontecendo é menos algo que aponta para um crescimento sustentável e para a recuperação de uma trajetória mais dinâmica da economia e mais que a gente chegou ao fundo do poço. Aparentemente, não dá para cavar mais fundo. Melhor que falar em recuperação, a gente pode dizer com mais cautela que a economia está parando de afundar. Estamos entrando em uma estagnação, tenderia mais a isso”, afirma.

    Segundo Cerqueira, o fato de que a economia possa estar "parando de afundar" é algo natural, próprio dos movimentos cíclicos da economia. “Como você tem um consumo e um investimento muito reduzidos, qualquer sopro que a gente experimente causa um efeito estatístico positivo. Era normal que esse momento um dia chegasse. Mas tem que ver qual será a intensidade de uma possível recuperação que ainda está para se confirmar”, pondera.

    O economista não crê que, com a atual política econômica, vá haver uma recuperação robusta. “O movimento cíclico natural da economia, independente da política econômica, aponta, sim para alguma recuperação. Mas a política econômica podia ajudar mais, acelerando o ritmo de queda da taxa de juros - não só da taxa de juros básica, mas para o crédito em geral dos bancos, os spreads - e na recuperação do investimento público e do próprio gasto público, que na verdade estão comprimidos pelas regras fiscais que a gente tem. Em razão desses fatores, não acredito em uma recuperação intensa da economia”, conclui.


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    Fonte : Joana Rozowykwiat, do Portal Vermelho
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