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GUERRA FRIA QUEM TIVER UM POUCO DE PACIÊNCIA LEIA.

Morávamos no meio do mato, meu pai arrendou um pedaço de terra, construiu uma casa de taipa, desmatou uma parte para a roça e entre cobras e lagartos se constitui nosso lar por alguns anos. Eram tantas serpentes, que muitas vezes eramos surpreendidos com uma ou outra descendo pelo punho da rede. Então la vinha minha mãe ou meu ´pai em nosso socorro. O telhado de nossa casa era chamuscado pelas investidas que dávamos nas danadas, com tochas embevecidas em querosene. Um dia, uma dessas peçonhentas me picou, quase fui bater às portas do céu; mas isso já é outra história.
Quase não tínhamos vizinhos, o mais próximo morava a um quilômetro, um velho senhor chamado João Dionizio, antigo tropeiro da Serra da Borborema, desbravador do sertão com os seus burros de carga.

Depois de muito vagar pelas caatingas cinzentas, resolveu encostar a tropa de burros, comprou o sítio, aonde vivia com uma filha e dois netos, Firmino e Duda.

Quando cheguei naquelas paragens fiz amizade com os dois, nos tornamos companheiros de aventuras e caçadas pelo mato; eles com a cadela Piaba e eu com o meu cachorro Calá. Tínhamos nossas divergências, que se agravaram quando o meu cachorro, grande caçador, se apaixonou por Piaba, dali em diante o que caçava, em vez de me entregar como sempre fizera, saia correndo e soltava aos pés da sua paixão, que repassava aos meus "amigos".

Sinceramente, eu tinha muita inveja deles; sempre bem vestidos em suas calças de linho sustentadas por suspensolos dourados. Tinham mais dinheiro que minha família. E quando os via com àquelas sandálias havaianas, que eram cuidadosamente lavadas duas vezes ao dia, e de tão branquinhas chegava a doer em minha vista, a raiva aumentava. Quando tinha oportunidade, e sempre tinha, aprontava-lhes várias peças, pisando dentro das sandálias, enquanto caminhavam em minha frente. Fiz duas ou três vezes, quebrando o chamado cabresto daquelas maravilhas do "calçar". Apanhava sempre; além de serem em dois, eu tinha a desvantagem de ser mais novo e mais franzino que eles.
A minha revolta maior estava conectada ao namoro de Calá com Piaba; não que eu tivesse ciúmes do meu cachorro, tratava-se de uma questão econômica e de sobrevivência, minha mãe me cobrava o tempo todo pela diminuição da caça nos últimos dias.

Resolvi ter uma conversa séria com os irmãos Dionizio, disse-lhes, que se não me devolvessem todas as caças que o traidor do Calá entregava à Piaba, a amizade estava acabada, com declaração direta de guerra por tempo indeterminado. Deram de ombros e se declararam prontos para a luta armada.

Voltei para casa bastante preocupado, tinha consciência da burrada que fizera, sabia que eles contavam com cinco ou seis primos, que se juntariam ao seu exército. Enquanto isso eu contava com um contingente manco: minha irmã Janice e mais tres primos, João, Lula e Ivanildo. João era o mais forte, porém com uma certa preguiça de raciocínio, Ivanildo era corajoso, mas não aguentaria o ardor de uma batalha selvagem, Lula era inteligente, mas sua fanfarronice acabava com essa sua qualidade, Janice era a mais confiável dos quatro, era dissimulada e usava algumas técnicas de guerrilha, não muito convencionais, diria que era uma pequena terrorista para os padrões infanto-juvenil da época.

Após uma análise aprofundada, cheguei a conclusão que só teria alguma chance contra os irmãos Dionizio se partisse para a chamada "guerra fria", somente assim poderia vencer meus algozes.
Reuni meus soldados e tracei os planos para a primeira estocada. A primeira providência foi amarrar o meu cachorro por alguns dias, para não haver nenhum encontro com a "queridinha" dele, e não permitir a aproximação dela num raio de duzentos metros. Distribui algumas tarefas venenosas ao meu exército; o que me custou os olhos da cara, tive que quebrar meu porquinho e entregar as moedas aqueles mercenários. Sabia que os irmãos Dionizio, eram criadores de várias espécimes de pássaros, o alpendre da casa da casa aonde moravam, ficava repleto de gaiolas, a passarada fazia um concerto a cada manhã, aquilo sempre me incomodou, não gostava de ver pássaros presos, naquela época eu já era um amante incondicional da liberdade.

Como numa guerra fria vale tudo, especialmente às surpresas, iniciei os preparativos para o nosso primeiro ataque.

Soltaríamos todos os passarinhos. Encarreguei Janice a espionar à casa do inimigo, horário que colocavam as gaiolas no alpendre, horário que saim para a roça e principalmente o horário que voltavam, recolhendo as gaiolas.

Após uma semana de estudo e anotações dos hábitos do inimigo, acertamos o dia "D".
Convoquei meu exército logo cedo e distribui as tarefas de cada um. Janice ficaria num ponto privilegiado para avisar de uma possível chegada repentina deles, João ficaria há alguns metros de Janice; estilingue em punho para espantar o avanço inimigo, Ivanildo e Lula me dariam cobertura, enquanto eu, me arrastando pelo mato alcançaria o alpendre e abriria todas gaiolas, trazendo a liberdade de volta aquelas lindas criaturas, que traçavam um coro matinal, onde não sabíamos se era canto ou pranto.

E assim foi feito. O resultado foi maravilhoso. Soltamos 10 canários, 8 cardeais(galo de campina), 12 coleiras, 2 pássaros pretos e outros mais que não lembro. Como a maioria nem mais se lembrava como voar, alguns ficaram pulando em galhos de árvores pequenas, sem conseguir alçar voo.
Escondidos, ficamos nos divertindo com os irmãos Dionizio chorando e correndo estabanados em todas as direções na tentativa de recapturar seus pássaros.

Claro que foi descoberto a autoria do ato "terrorista"; a mãe deles foi até minha mãe e pediu medidas urgentes para punir os culpados... tomei uma surra daquelas, mas aguentei o castigo, disse que agi sozinho, para proteger o meu exército e prepará-lo para outras batalhas... que não foram pouca.
Atualmente os Irmãos Dionizio moram em São Paulo, um deles é casado com uma prima minha, quando nos encontramos(raramente), damos boas gargalhadas ao lembrar dessas aventuras da infância.


Jurandy França/Portal Arara
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